A ECONOMIA VERDE NÃO É BEM ASSIM – SORTE NOSSA

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Neoenergia, Vale e os caminhos no futuro elétrico que só o Brasil possui

Você já deve ter ouvido falar que os carros elétricos são o futuro, um grande passo em direção à supremacia da energia sustentável e renovável. Bom, essa informação tem dois grandes “não-é-bem-assim”.

Primeiro “não é bem assim”: não estamos falando do futuro, falamos de 2025. Esse será o fim da linha do carro a combustão interna em vários lugares. Nesse ano:

  • a Noruega proibirá a venda de carros novos movidos a gasolina ou a diesel;
  • Paris, Cidade do México, Madri e Atenas proibirão a circulação de vans e veículos leves a diesel;
  • será a data-limite para que Reykjavik, capital da Islândia, feche metade de seus postos de combustível;
  • somente veículos com zero emissão de poluentes poderão ser registrados em Menlo Park, Califórnia, um mercado de 34 mil habitantes. Parece pouco, mas, para as montadoras, não é nada, não é nada… não é nada mesmo. Mas é um começo;
  • a Índia estuda banir a venda de motos e lambretas (scooters) com mais de 150 cilindradas movidos a gasolina;
  • a Toyota promete 70 novos modelos de automóveis até aquele ano, entre “elétricos, híbridos e movidos a células de hidrogênio”;
  • a BMW espera que entre 15% e 25% de suas vendas venham de veículos elétricos.

Colocando essa data em perspectiva, estaremos preocupados com as eliminatórias da próxima Copa do Mundo, a da América do Norte (que será disputada no Canadá, Estados Unidos e México), quando todas essas leis entrarem em vigor.

No Brasil, a lei em discussão proíbe a venda de carros novos movidos a gasolina e a diesel a partir de 2030. Além da energia elétrica, álcool combustível vai continuar valendo.

O que preocupa é o segundo “não é bem assim”: a energia sustentável e renovável não é bem assim.

Tanto que uma parcela de especialistas não abraçou a ideia da energia elétrica, pelo menos não como única opção. A Volkswagen, através da Porsche, afirma desenvolver uma gasolina 85% menos poluente. O combustível será produzido em uma fábrica na cidade de Magallanes, no extremo sul do Chile.

Pode ser uma boa solução. O Wall Street Journal e a Universidade de Toronto resolveram tirara a prova e compararam os modelos mais vendidos de carro elétrico e combustível fóssil nos Estados Unidos. Resultado: para se produzir um modelo elétrico, devido aos custos e à dificuldade e pegada ambiental da bateria, lança-se na atmosfera 12 toneladas de gás carbônico. O modelo tradicional joga no ar que respiramos apenas 7,4 toneladas. É preciso dirigir pouco mais de 33 mil quilômetros para que o custo ambiental se equilibre. Para se ter uma ideia do que isso significa, segundo a empresa de avaliação de veículos KBB, o brasileiro médio dirige pouco mais de 12 mil quilômetros no primeiro ano de vida de um automóvel. Ou seja, só depois de 3 anos o carro elétrico realmente passa a ser verde.

Aqui, é preciso abrir um grande parêntese: o estudo da universidade de Toronto foi feito com base na matriz energética dos Estados Unidos, muito dependente de usinas termoelétricas poluentes. Segundo o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o setor elétrico brasileiro é responsável por apenas 3% das emissões de gases de efeito estufa que nosso país produz, enquanto no mundo a média é de 25%. Estudos feitos pela petrolífera BP confirmam. Em 2019, as cinco maiores fontes de nossa matriz energética no Brasil eram:

  • 38% petróleo
  • 29% hidroelétrica
  • 10% gás
  • 8% biocombustível
  • 5% carvão

Enquanto a média mundial era:

  • 33% petróleo
  • 27% carvão
  • 24% gás
  • 6% hidroelétrica
  • 4% nuclear

Nesse sentido, o nosso país está olhando para uma imensa vantagem competitiva: se uma empresa quiser se tornar neutra na produção de carbono, compensa produzir no Brasil, onde boa parte do caminho já está andado. No encontro promovido pelo Cebri, a presidente da Neoenergia (BOV:NEOE3), Solange Ribeiro, afirmou: “Temos condição de ofertar para o resto do mundo [energia] renovável, com baixa pegada de carbono e competitividade”.

E, sim, isso atrai investimentos. Como o Reino Unido resolveu ser o primeiro país das grandes economias do mundo a cravar uma data para a proibição de venda de carros movidos a gasolina e a diesel (em 2030, sendo que híbridos que passem por rigorosos testes ganham uma colher de chá e podem ser vendidos até 2035), a Nissan resolveu centralizar suas operações europeias naquele país. E não é a única ação vinda da Terra da Rainha. Isso sem falar no efeito cascata que não se sabe aonde vai parar. Só para ficar no ramo dos esportes, a decisão britânica obriga a Fórmula 1 a abandonar os motores movidos a gasolina a partir de 2030, sob pena de nunca mais correr em templos do automobilismo como Silverstone. Outra meta a ser cumprida até 2030 é gerar energia eólica suficiente para iluminar cada casa de cada habitante na Grã-Bretanha.

No Brasil, a Neoenergia é uma das empresas que parece entender esse movimento. Tanto que antecipou a construção do seu parque de energia solar no município de Santa Luzia, no sertão da Paraíba. Será um espaço de quase 50 campos de futebol gerando energia através de uma das coisas que o Nordeste tem de sobra: Sol.

E parece ter vento também. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiará a construção de uma nova unidade ao complexo de energia eólica Santa Martina 9, nos municípios de Riachuelo, Caiçara do Rio do Vento, Bento Fernandes e Ruy Barbosa, no Rio Grande do Norte. A nova unidade promete gerar energia para o consumo equivalente de 130 mil residências.

A Vale (BOV:VALE3) é um caso intrigante. Por um lado, desenvolve o projeto Sol do Cerrado, em Jaíba, Minas Gerais. São 2,5 bilhões de reais investidos na usina solar que deve entrar em operação em 2022. O projeto foi comprado da Aurora Energia. O gigantesco empreendimento tem capacidade de geração de energia de 1.357 MW, sendo que 766 MWp já detêm contratos assinados para a conexão ao Sistema Interligado Nacional.

Por outro lado, a empresa parece abrir mão de sua posição como maior produtora mundial de níquel, metal fundamental na fabricação das baterias para veículos elétricos, ao vender a Vale Nouvelle-Calédonie (VNC). A Nova Caledônia, para quem não sabe (se você conhece, é porque trabalha na Vale. Nem agente de viagem deve conhecer o local), é uma ilha perto de Vanuatu. Certo, certo. Com um pouco de boa vontade pode-se dizer que fica perto da Austrália. Pertencente à França e o território é riquíssimo em níquel. A Vale retira-se da região, deixando o caminho livre para que suas rivais chinesas e britânicas assumam a primeira posição no ranking de produtores. “Após vários meses de negociação, estou satisfeito por ter concluído o nosso desinvestimento na VNC, beneficiando os empregados e a Nova Caledônia. Esta transação atende às garantias exigidas nos âmbitos financeiro, social e ambiental e oferece um futuro sustentável para as operações”, disse Eduardo Bartolomeo, CEO da Vale.

Bartolomeo pode estar contente, mas o Global Nickel Metal Market Report 2021, do qual a própria Vale participou, aponta que o preço do metal deve continuar em alta até 2026.

Mas, se o Brasil começar a usar bem seu vento e Sol da mesma maneira que usamos as hidroelétricas, seremos, de verdade, um país tropical abençoado por Deus e lucrativo por natureza.

Comentários

  1. George diz:

    Imaginem quando as quedas d´água da calha norte do amazonas estiverem produzindo energia hidrelétrica e transmitindo para toda a América do Sul.

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