Enquanto a bolsa sobe, o rating cai

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O mercado brasileiro deu de ombros para a decisão do governo de abandonar a pressão no Congresso em prol da reforma da Previdência. O Ibovespa acumulou alta de 3,3% na última semana e renovou o recorde de fechamento, amparado pela perspectiva de que os juros nos Estados Unidos aumentarão lentamente, sem perturbar o fluxo de investimento estrangeiro aos países emergentes.

As consequências do baixo compromisso do Planalto e do Congresso com o ajuste das contas públicas, porém, começam a aparecer. Na sexta-feira, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota do Brasil e igualou a credibilidade do país à de nações como Bolívia e Vietnã. Também indicou que o Brasil é menos confiável que o Paraguai, cuja dívida equivale a cerca de 20% do PIB. A nossa está em 74% e crescendo.

O que os eventos recentes mostram é que, embora a recessão econômica brasileira tenha ficado para trás, a profunda crise política da qual o Brasil ainda não emergiu impede as autoridades de agir e lidar com o quadro fiscal precário do setor público, que cada vez mais assume o papel de protagonista da próxima crise doméstica.

O governo, que vê tanto a crise quanto o fim do atual mandato se aproximando, segue em estágio de negação e usa as várias altas consecutivas do Ibovespa como prova de que está fazendo um bom trabalho. Conseguiu inclusive enxergar um lado positivo no comunicado da Fitch sobre o rebaixamento do rating brasileiro, que aponta a inação do poder público como justificativa maior da queda na nota de crédito soberana.

Os investidores tampouco contribuem para injetar realidade na avaliação sobre as perspectivas brasileiras, preferindo surfar na onda do capital externo, especulativo, que de janeiro até meados de fevereiro injetou cerca de US$ 6,2 bilhões na bolsa em busca de retornos mais altos que os oferecidos em economias avançadas.

Vale lembrar que o próprio Banco Central vem apontando há meses riscos ao atual cenário. Disse o Comitê de Política Monetária na última ata: “uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação (…) Esse risco se intensifica no caso de reversão do corrente cenário externo favorável para economias emergentes”. Metade desta avaliação se cumpriu. Falta descobrir quando a outra metade acontecerá.

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