A Crise na Ucrânia

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Enquanto curtíamos alegremente o feriadão de carnaval, todas as bolsas de valores internacionais repercutiam os desdobramentos da crise política na Ucrânia – uma ex-república soviética, que está no meio de uma disputa de forças entre grupos que querem mais proximidade com a União Europeia e outros que têm mais afinidade com a Rússia.

Londres, 06 de Março de 2014 – Durante a folia tupiniquim, todas as atenções voltaram-se para a Crimeia – região autônoma da Ucrânia, alinhada (em sua maioria) à Rússia e que convocou um referendo sobre sua soberania.

No final de semana, tropas russas assumiram o controle sobre a região, apesar dos protestos da comunidade internacional.

 

O início do conflito ucraniano

Em novembro, diversos protestos explodiram na capital ucraniana espalhando-se, posteriormente, para diversas regiões do país. Os protestos iniciaram-se depois que o então presidente Viktor Yanukovich anunciou sua decisão de não assinar um acordo de cooperação com a União Europeia (UE).

Em fevereiro, Yanukovich foi deposto, um governo interino foi empossado e novas eleições foram convocadas.

 

A economia ucraniana

 

A Ucrânia é a terceira maior exportadora de trigo e milho do mundo, e a Rússia supre um quarto das necessidades europeias de gás, em grande parte via gasodutos que passam por território ucraniano.

 

Os efeitos econômicos do conflito

O temor de uma guerra entre Rússia e Ucrânia já afeta preços internacionais. Nesta semana, o trigo chegou a seu valor máximo em 17 meses, e o milho alcançou o preço mais alto desde setembro. Na segunda-feira, o gás chegou a subir 10%.

Estados Unidos e União Europeia têm boas razões para temer que a crise coloque em perigo a levíssima recuperação econômica dos países desenvolvidos.

A União Europeia está em situação frágil e o que menos precisa é de pressões inflacionárias associadas aos preços dos alimentos, como ocorreu antes da crise financeira de 2008. Hoje, o trigo e o milho são duas das commodites com os preços mais altos no mercado internacional, por conta do perigo de interrupções no fornecimento mundial, ao que se soma o inverno americano de baixas temperaturas.

Alterações no fornecimento de gás à Europa seria igualmente preocupante. E sequer é preciso que algo aconteça – basta que exista a ameaça. Se a crise se aprofunda, o impacto será global.

O perigo de desabastecimento de gás tem antecedentes nos últimos anos.

Em 1º de janeiro de 2005, a Rússia cortou o fornecimento de gás à Europa que atravessava a Ucrânia, por conta de uma disputa por preços. Em 2009, houve uma séria queda no abastecimento europeu por conta de dívidas acumuladas de Kiev com Moscou.

As duas crises fizeram com que os países da UE melhorassem sua capacidade de abastecimento.

Hoje, com mais rotas de gás alternativas à Ucrânia e um inverno menos rigoroso, a UE está mais bem preparada para emergências.

O maior consumidor de gás russo na União Europeia, a Alemanha, tem uma capacidade de armazenar gás suficiente para cobrir dois meses de demanda e se aproveita de gaseodutos que atravessam o mar Báltico. Os países da Europa Central, também muito dependentes da Rússia, têm armazenamento suficiente para três meses.

A aprovação do envio de tropas à Crimeia  teve um claro impacto na economia russa. O rublo teve forte queda em relação ao dólar, e a bolsa de valores Moscou caiu 10%. O Banco Central do país se viu forçado a aumentar as taxas de juros para sustentar a moeda.

Por outro lado, a alta das cotações eo gás e de petróleo beneficiam a Rússia, cuja economia se baseia nesses produtos.

Já a Ucrânia é um país virtualmente falido. O país tem vencimentos de US$ 13 bilhões de sua dívida neste ano, e mais US$ 16 bilhões no ano que vem.

Em meio à crise, a Rússia suspendeu a ajuda de US$ 15 bilhões – que poderia evitar a moratória ucraniana.

Nesta quarta-feira, a União Europeia anunciou um pacote de ajuda ao país com esse mesmo valor nos próximos dois anos, na forma de empréstimos.

Por sua vez, o Reino Unido, refúgio preferido dos multimilionários russos, teria muito a perder em caso de sanções à Rússia por sua ingerência na Ucrânia.

O país seria afetado porque, em primeiro lugar, uma quantidade considerável de ativos russos se encontra na Grã-Bretanha. As grandes empresas de hidrocarbonetos Gazprom, Rosneft ou Lukoil, a operadora de telefonia celular MegaFon ou o banco Sberbank, são algumas das 70 empresas russas que são cotadas em parte na bolsa de valores de Londres.

As luxuosas residências de Kensington e Chelsea, cuja equipe de futebol pertence ao magnata Roman Abramovich, são o lar de muitos russos – os primeiros no pódio dos estrangeiros que, em 2013, compraram um bem imobiliário superior a um milhão de libras. Duzentos e sessenta e quatro russos gastaram 650 milhões de euros. Se esses ativos ficarem congelados pelas sanções e os russos não puderem comprar bens imobiliários na cidade, isso colocaria fim a uma das fontes da bolha de preços de Londres, pondo em perigo o preço dos bens da capital e correndo o risco de se formar uma bola de neve que acabe afetando a economia britânica em conjunto.

Se forem evitadas as sanções e a situação na Ucrânia continuar igual, o Reino Unido poderia ser beneficiado, porque a instabilidade poderia fazer com que mais ricos russos e ucranianos se voltassem para a capital britânica. A queda do rublo, que se acentuou com a crise ucraniana, provocou nos últimos meses fugas em massa de capital da Rússia.


 

 

 

 

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