Mais política na economia

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O contexto político volta a pesar na perspectiva dos mercados financeiros hoje. A aprovação do projeto de terceirização irrestrita da mão de obra até pode trazer um alento aos negócios locais, diante da possibilidade de maior oferta de vagas de emprego, mas o recuo do governo na reforma da Previdência e a necessidade de aumentar impostos para cobrir parte do rombo no Orçamento tendem a manter o desconforto.

No exterior, as atenções dos investidores estão concentradas na votação do projeto de saúde do governo Trump, que tenta substituir o chamado “Obamacare”. Qualquer fracasso na proposta pode cair mal em Wall Street, sinalizando dificuldades do presidente norte-americano na aprovação do corte de impostos e aumento dos gastos.

À espera de novidades no front político, os mercados internacionais mantêm a acomodação observada ontem, um dia após a maior onda vendedora (“selloff”) desde as eleições de Donald Trump, em novembro. A profundidade da queda nos ativos de maior risco atraiu investidores que viram exagero no movimento, dada a força da economia global.

Nesta manhã, os índices futuros das bolsas de Nova York estão na linha d’água, sem uma direção definida, o que também influencia o pregão na Europa, após a sessão na Ásia amenizar as perdas do dia anterior. Os ativos mais seguros, como o iene e o ouro, fazem uma pausa no rali, e a T-note de 10 anos também está estável. O petróleo também avança, em meio aos sinais de redução dos estoques norte-americanos da commodity.

Sem horário previsto para a votação no Congresso dos Estados Unidos e sem saber qual será o apoio dos republicanos à proposta, as atenções do dia também se dividem com o discurso que a presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, faz às 9h45, durante evento em Washington. A expectativa é de que ela reassuma as rédeas na comunicação com o mercado financeiro, reduzindo a cautela excessiva no tom do colegiado e reconstruindo o ambiente de alta mais convicta na taxa de juros norte-americana neste ano.

Fora isso, a agenda econômica desta quinta-feira está recheada de indicadores de menor relevância. No EUA, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país (9h30) e dados sobre o setor imobiliário norte-americano em fevereiro (11h). Na zona do euro, destaque para a leitura preliminar do índice de confiança do consumidor em março (12h).

Já no Brasil, saem as prévias deste mês da FGV sobre a sondagem da indústria e a inflação ao consumidor (IPC-S), às 8h. Às 11h, a CNI anuncia os dados de fevereiro sobre a atividade na construção civil.

Por aqui, a prévia da inflação oficial ao consumidor em março, medida pelo IPCA-15, reforçou a aposta de que o Banco Central deve intensificar os cortes na taxa básica de juros (Selic) já em abril. Porém, a convicção dos mercados domésticos na aceleração desse ritmo ainda depende da tramitação das reformas estruturais.

O ruído político causado com o recuo do presidente Michel Temer, que retirou os servidores estaduais e municipais da proposta de mudança nas regras da aposentadoria, desagradou aos agentes econômicos, deixando a sensação de que novos recuos podem acontecer. Mais que isso, a decisão de Temer pode levar o trabalhador do setor privado a questionar quem irá pagar a conta da Previdência, uma vez que o número de excluídos do arrocho só aumenta.

Mas pode servir de afago aos trabalhadores – desempregados, principalmente – a aprovação do projeto de 1998 que libera a terceirização ampla da mão de obra, permitindo que qualquer ramo de atividade das empresas e de parte do setor público seja terceirizado. A aprovação, por 231 votos e 188 contra, tende a facilitar a contratação de pessoas, diante da redução dos custos trabalhistas, mas a medida também é considerada como uma “porta para a precarização”, nivelando por baixo a geração de emprego e ameaçnado os profissionais com anos de carreira.

Mas a pauta que interessa no Congresso ainda é a das reformas trabalhista e tributária, que ganham cada vez mais importância para determinar até aonde os juros brasileiros podem cair. Só que o plano de voo do BC também fica condicionado, agora, à questão dos impostos.

Ainda mais após a o anúncio da equipe econômica, ontem, de que faltam R$ 58,2 bilhões para fechar as contas do Orçamento de 2017. O bloqueio dos gastos – o chamado contingenciamento – deve sair na semana que vem, mas o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já sinalizou que o governo precisará adotar medidas, como aumento de impostos, a fim de cumprir a meta fiscal deste ano.

Segundo o ministro, diante da redução da previsão de crescimento da economia em 2017, com uma alta de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) ante +1% e +1,6% esperados anteriormente, a arrecadação federal deve ficar comprometida e o corte nas despesas não deve ser suficiente para atingir a previsão de déficit de R$ 139 bilhões em 2017. Para cumprir esse objetivo, faltam, os tais R$ 58,2 bilhões.

Há, então, “uma grande possibilidade” de elevação de tributos para conseguir esses recursos e o anúncio de medidas pode ser feito na semana que vem. Na mesma de apostas, permanecem as previsões de revisão nas alíquotas do PIS/Cofins, e também de aumento na contribuição (CIDE) do imposto que incide sobre combustíveis ou sobre as operações financeiras (IOF).

Nos bastidores, até mesmo a CPMF pode voltar… provisoriamente. A dúvida que fica é como será a reação da economia se houver essa revisão na carga tributária. A inflação até pode conseguir suportar um eventual choque de preços, diante da trajetória favorável. Já o PIB pode ter dificuldades em sair da tendência negativa dos últimos dois anos.

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