IPCA deve ter deflação em junho; pressão sobre BC para reduzir os juros deve aumentar

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Todos os indicadores de inflação divulgados hoje voltaram a surpreender para baixo, levando bancos e consultorias a rever suas estimativas para o IPCA do ano e, com isso, a questionar se o Comitê de Política Monetária (Copom) vai manter a proposta de reduzir o ritmo de corte nos juros na próxima reunião, de 1 ponto percentual para 0,75 ponto. Depois da alta de 0,31% no IPCA de maio, abaixo dos 0,47% esperados, algumas consultorias já trabalham com deflação do indicador oficial do Banco Central (BC) em junho,  aumentando a pressão para que o juro caia mais depressa, ainda mais diante do impacto da crise política na atividade econômica.

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Fonte: Rosenberg Associados

Com 1,42% no ano, a menor inflação de janeiro a maio desde 2000, e 3,60% em 12 meses, também a menor desde 2007, o IPCA mostra que os preços estão mais que comportados. Essa visão é reforçada por índices, como os IGPs, que têm forte componente de preços no atacado, e que seguem em deflação. A primeira prévia do IGP-M de junho registrou uma deflação de 0,51%, com o IPA, dos preços no atacado, caindo 1,07%. Como a alta do atacado é a inflação do varejo amanhã, a expectativa é de menos pressão do IPCA nos próximos meses.

Após a divulgação dos números de maio do IPCA, o Comitê de Acompanhamento Macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revisou para baixo a projeção para junho, que passou de 0,24% para -0,12%. Para julho, a projeção foi de 0,23%.

Caso as projeções se efetivem, o IPCA acumulado em 12 meses alcançará 3,1% em junho e 2,8% em julho. Os resultados estão abaixo do centro da meta de inflação, de 4,5%, prevista para este ano pelo Banco Central, o que daria espaço para o BC reduzir mais os juros, hoje de 10,25% ao ano.

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Difusão cai e índica inflação menos generalizada

Outro indicador importante da força da inflação, o índice de difusão, por sua vez, caiu de 60,6% há um mês para 51,7%, abaixo da média histórica (62,6%) e de maio do ano passado, quando ficou em 63%, destaca a MCM Consultores. A difusão mostra o percentual de produtos no índice que subiram no período e, portanto, quanto menor, menos generalizada a inflação.

O baixo índice de difusão mostra uma peculiaridade do IPCA de maio, observa a MCM: a aceleração no mês foi concentrada em basicamente um único item, energia elétrica (8,98% ante -6,39%), com contribuição de 0,29 ponto percentual para o índice cheio.

Energia elétrica, vilã de maio

O avanço foi determinado pela retirada do desconto concedido nas contas de abril tendo em vista ressarcir ao consumidor as cobranças indevidas de Angra III. “Dessa forma, o grupo Habitação subiu 2,14% ante queda de 1,09% no mês anterior, a despeito do recuo de gás de botijão (-0,53% ante 2,63%), que em abril havia captado o reajuste de 9,8% aplicado nas refinarias em 21 de março”, destaca a consultoria. Outros acréscimos advieram de Vestuário (0,98% ante 0,48%), com sazonalidade altista, e Despesas Pessoais (0,23% ante 0,09%), reflexo da queda menos intensa de recreação (-0,07% ante -0,4%).

Serviços seguem comportados

Apesar da alta de maio do IPCA, os indicadores de núcleo de inflação continuaram desacelerando no acumulado em 12 meses, sinalizando que a desinflação também tem atingido os componentes mais sensíveis à política monetária, avalia o Bradesco. Os preços de serviços acumularam alta de 5,78% nos últimos 12 meses, abaixo do avanço de 6,10% acumulado até abril. A média dos núcleos apresentou alta de 0,22% em maio, ligeiramente abaixo da elevação de 0,27% registrada no mês anterior, estima o banco.

Em junho, energia ajudará na deflação

Em junho, energia elétrica será novamente um dos principais determinantes do resultado do IPCA, que deverá registrar deflação de 0,10% a 0,15%, estimam consultorias e bancos. A dissipação do impacto da retirada do desconto sobre as tarifas de energia, aliada ao acionamento da bandeira verde e redução da tarifa da Cemig, levará à redução das contas de luz ao redor de 6% no mês, observa a MCM.

Contribuirão também para o recuo do indicador a redução dos preços da gasolina na refinaria, o esgotamento do efeito do reajuste de medicamentos e a continuidade do comportamento benigno dos alimentos. Na direção oposta deverá ser captada pressão altista de passagens aéreas e elevação do gás de botijão, em virtude do reajuste anunciado pela Petrobras em 7 de junho. “Desta forma, com base no novo conjunto de informações, revisamos nossa projeção para o IPCA de junho de 0% para -0,10%”, diz a MCM. “Com esse resultado, o indicador irá acumular variação ao redor de 3,1% em 12 meses, ante 3,6% em maio”, diz a consultoria, que revisou a estimativa do IPCA para este ano, para 4%.

Mudança de bandeira e combustíveis

Deflação de 0,10% também é a estimativa do Bradesco para o IPCA de junho. “Esse resultado refletirá, principalmente, a mudança da bandeira da tarifa de energia elétrica e a redução dos preços dos combustíveis”. Além desse efeitos pontuais, o banco também espera manutenção da tendência de arrefecimento dos demais componentes do índice. “Com base nessa expectativa, a variação acumulada em 12 meses continuará declinando, devendo atingir uma elevação de 3,1% em junho”, estima o banco.

Pressão sobre o BC

Nos primeiros cinco meses do ano, o IPCA segue surpreendendo com taxas mensais bastante amenas, observa a Rosenberg Associação, que acredita que essa queda coloca pressão sobre o Banco Central para reduzir mais as taxas de juros. A consultoria cita dois fatores principais para essa descompressão.

O primeiro é o choque benigno da super safra agrícola sobre os preços dos alimentos amenizam a sazonalidade típica do grupo, com efeitos benéficos sobre as taxas mensais.

O segundo é a contínua deterioração da atividade e do mercado de trabalho afetam os demais preços livres, ainda que de maneira difusa sobre os itens, mas com destaque para a desaceleração mais célere do núcleo de serviços observada especialmente no primeiro trimestre deste ano, e também dos industriais;

Impacto menor no segundo semestre

Estes efeitos devem favorecer a descompressão mais célere do índice ao longo de 2017, com destaque para a primeira metade do ano – quando as taxas mais elevadas registradas em 2016 serão eliminadas – efeito que deve se esgotar no segundo semestre deste ano.

Até então, os preço administrados, como energia, eram o risco ao processo desinflacionário em curso, avalia a Rosemberg. “Contudo, o regime favorável de chuvas no curto prazo propiciou a reversão da cobrança da tarifa elétrica via bandeiras tarifárias e a queda da tarifa residencial cobrada pela Cemig devem acarretar queda acentuada do item energia elétrica em junho”, diz a consultoria em relatório. “Ademais, com o preço do petróleo registrando sensível queda no mercado internacional, a Petrobras reduziu o preço da gasolina e do diesel em junho, adicionando força ao ímpeto deflacionário esperado para o mês”, acrescenta.

Tarifas vão ajudar na deflação de junho

Com isso, os preços administrados passam a ser fonte de alta volatilidade nas previsões de inflação, mas com o pêndulo do grupo apontando para aceleração da queda do IPCA no curto prazo, especialmente na taxa mensal de junho, que a Rosenberg projeta em -0,15%.

“Com isso, revisamos nossa projeção para o IPCA de 2017 para 3,5%, contra a taxa de 3,9% esperada anteriormente”, diz a consultoria. E, sem choques sobre o câmbio, o movimento benigno deve influenciar a inflação no ano que vem, quando a consultoria prevê que o IPCA deve terminar com variação de 4,0% (anteriormente prevista em 4,3%).

Revisão de inflação no ano

Entre os que reduziram as projeções para o IPCA, o BNP Paribas agora projeta 3,5% para a inflação deste ano, ante 4% estimados anteriormente. A inflação em queda reforça a projeção de juros do banco, de 8% para a Selic no fim deste ano e de 7% no próximo.

A MB Associados manteve a projeção de 3,6% para o IPCA no ano, já prevendo um índice baixo em maio e deflação em junho, por conta da gasolina e dos preços da energia. “Com a atividade ainda fraca, é difícil os preços reagirem esse ano”, afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB. “Teria de haver uma depreciação muito intensa do dólar por conta da crise para isso acontecer, mas não parece ser o caso agora”, avalia. “Apenas ano que vem, a depender da eleição, podemos ter mais turbulência.”

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