As gravações do Presidente da República que abalaram o mercado

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Calma investidor, isso foi a três anos atrás…

2017 foi um ano que começou mal. Logo em primeiro de janeiro estourou uma grande rebelião em um presídio de Manaus. Quase três semanas mais tarde, com menos de 24 horas de diferença, dois grandes pontos de interrogação pairavam sobre nossas cabeças. Por aqui, Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) morre em um acidente aéreo. Subindo no mapa, Donald Trump assumiria a presidência dos Estados Unidos. Mais uma semana e pouco, e Eike Batista seria preso, acusado de corrupção. 22 de fevereiro, citando problemas de saúde, José Serra deixa o Ministério das Relações Exteriores de Temer, onde favoreceu a União Europeia às custas do Mercosul. Adiantamos o calendário em um mês, e o FBI anuncia investigação sobre uma possível interferência russa nas eleições norte-americanas, o que teria ajudado na vitória de Trump.

Todos esses fatos ecoam hoje, três anos depois, como veremos em breve.

 

Mesmo assim, nenhum teve impacto nos negócios e na bolsa como o Joesley Day.

Os dias anteriores – Joesley Batista é um dos donos da JBS (BOV:JBSS3), filho do fundador da empresa e um dos responsáveis pelo rápido crescimento e internacionalização da empresa. Esse processo começou em 2007, com a entrada da empresa na B3 e a compra das divisões norte-americana e australiana da Swift. Nos próximos nove anos, foi um festival de compra de empresas nas Américas, Europa e Oceania. E no Brasil também, com aquisições de peso, como a Seara.

Chegamos a 2017. Maio. Joesley Batista faz diversas viagens aos Estados Unidos, acompanhado de vários parceiros de negócio, o que não era incomum naquela época. Afinal, estamos falando do gestor de uma das maiores empresas de proteína animal do mundo. E também compra muito dólar, o que também não é incomum. Vai que estava querendo comprar uma casa nos Estados Unidos…

— Mas, na época, ele mandou despachar seu iate para os Estados Unidos

Uma casa à beira-mar, então.

— E, segundo a Procuradoria-Geral da República, as operações com dólar chegaram perto dos 3 bilhões de dólares

Uma enorme casa à beir…  Não, vamos aos fatos. Em 2016, Joesley já era investigado pela Operação Lava-Jato, acusado de possível corrupção. Em maio de 2017, resolveu fechar um acordo de delação premiada.

Polícia Federal: Muito bem, senhor Joesley Batista, em troca da diminuição de sua pena e multa, o que o senhor nos dá de prova?

Joesley: Ah, eu tenho uma gravação.

Muito mais do que uma gravação: Joesley tinha o destino do governo do então presidente Michel Temer nas mãos. Nela, Joesley dá a entender que estaria comprando o silêncio de um dos envolvidos, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. A resposta de Temer foi o famoso “tem que manter isso aí”.

Mas nada se manteve igual naquele 17 de maio de 2017

O Joesley Day – A possibilidade da queda do presidente, junto com o envolvimento de uma das empresas preferidas de muitos analistas da bolsa, enviaram o mercado direto para a UTI.

Para se ter uma ideia, o dólar chegou a valer R$ 3,39.

Ok, pare de rir, é sério. Dia 16 de maio, o dólar foi dormir a R$ 3,09. Dia 17, chegou a R$ 3,38, segundo alguns, R$ 3,39, para outros. E aqui entra uma polêmica que ainda complica Joesley Batista e seu irmão, Wesley, até os dias de hoje: lembra daqueles quase 3 bilhões de dólares? Geraram aos Batista um lucro de aproximadamente US$ 100 milhões que, segundo a defesa, deveriam ser suficientes para pagar as multas impostas pela justiça. No final, ainda segundo a Procuradoria-Geral da República, o valor dessa multa foi fixado em 10 milhões e 300 mil… reais. Volta e meia a justiça questiona tais valores.

Mas nada disso chega perto ao que aconteceu na Bolsa de Valores. O Ibovespa, principal índice da bolsa, despencou 12% em uma hora, causando um circuit-brake, a primeira interrupção do pregão desde 2008. Isso permitiu que todo mundo tomasse Maracugina (que não estamos aqui para divulgar remédio tarja-preta), e o dia encerrou com perdas de 8,8%.

Nem todas as empresas afetadas naquele dia tinham algo a ver com o governo, ou a Lava Jato. O que houve foi uma aplicação do efeito manada. Em entrevista para a Exame, o ex-economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Roberto Luis Troster, afirmou: “Não existe nada mais covarde que o dinheiro. Se todo mundo está vendendo, o investidor vai tentar vender antes que os outros.”

Veja a seguir algumas das empresas mais afetadas pelo Joesley Day e como elas estão hoje:

1 – JBS (JBSS3)

No Joesley Day (17/5/2017), chegou a R$ 1,75
Três anos depois, 15/5/2020, valia R$ 23,33
Porque Continua sofrendo alguns reflexos daquela delação, e teve prejuízo no primeiro trimestre do ano.
Daqui para frente Um dos poucos mercados não afetados pela pandemia é o de alimentos

É claro que a empresa no olho do furacão seria a primeira. A trajetória da JBS daria um filme (fica a dica, Netflix) Começo humilde, ousadia, responsável pela mudança da imagem dos frigoríferos na B3: antes, o setor era visto como algo amador, que frequentemente se utilizava de força política e costumava burlar a lei. Com a ascensão da empresa dos irmãos batista, o setor tornou-se uma questão de orgulho nacional. Graças à sanha de aquisições de empresas pelo mundo, a JBS nos colocou no pódio. O Brasil era líder no mercado de boi e frango, e quarto em suínos. Até que chegou 2017, quando, segundo o jornal Valor Econômico, um banqueiro afirmou que Wesley era quem estava maias envolvido no dia-a-dia da operação, pois Joesley era algo amador, utilizava de força política e costumava burlar a lei. Não é de se espantar que, durante o Joesley Day, as ações da empresa tenham caído mais de 31% em relação ao pregão anterior. As ações da empresa fechariam aquele maio com queda de 21,56%, em comparação com abril daquele ano.

Hoje, a empresa enfrenta novos desafios. Em algumas de suas unidades nos Estados Unidos foram encontrados traços do vírus da Covid-19. Algumas dessas unidades estão abrindo apenas para sacrificar animais, que não tem espaço nas fazendas, e muito menos no abatedouro). Ou seja, gasto operacional, risco para os funcionários e o produto não pode ser vendido.

Apesar de ainda amargar alguns desafios, o mercado de alimentos continua sendo um dos que melhor reage às crises. De fato, em menos de dois anos espera-se um aumento significativo da demanda pelos produtos da JBS. Por quê? Porque é mais ou menos a idade que os bebês começam a comer carne. Que bebês, você pergunta? Espere uns 8, 9 meses. O que você acha que as pessoas ficam fazendo dentro de casa?

2 – Eletrobras (ELET3)

No Joesley Day (17/5/2017), chegou a R$ 12,53
Três anos depois, 15/5/2020, valia R$ 22,65
Porque Em 2017, registrou um prejuízo de R$ 1,63 bilhão; em 2018, veio o lucro recorde de R$ 13,348 bilhões. Continua bem, obrigado
Daqui para frente Impossível prever. O setor de energia continua navegando conforme o que dita Brasília

Apesar de ser uma das líderes em queda durante o Joesley Day, a empresa foi mais vítima do efeito manada do que qualquer outra coisa. Sim, ela começou a ser investigada pela Operação Lava Jato em 2015, e também enfrentou acusações da justiça norte-americana. Mas hoje em dia está com nome limpo na praça, tendo quitado todas suas pendências. Inclusive, foi uma das empresas que recebeu indenização da Odebrecht, como ressarcimento por obras superfaturadas.

3 – MRV (MRVE3)

No Joesley Day (17/5/2017), chegou a R$ 13,29
Três anos depois, 15/5/2020, valia R$ 13,60
Porque Uma possível queda de Temer colocaria em risco o programa Minha Casa, Minha Vida, um dos pilares de faturamento da empresa.
Daqui para frente A tendência é que algumas empresas continuem a adotar o teletrabalho, alterando o que profissionais esperam de suas casas (vamos falar disso mais para frente)

A empresa patinou nesses três anos devido a um grande cliente. Aliás, um enorme cliente. Até setembro de 2019, 80% dos negócios da MRV vinham do Minha Casa, Minha Vida. 80%. Imagine comer apenas seu prato favorito 80% dos seus dias. Cedo ou tarde, a saúde reclama. Com pessoas jurídicas, acontece o mesmo. A partir daí, cansou de esperar o repasse do governo e mudou o foco. Em entrevista para a Folha de S. Paulo, um dos dois presidentes da Empresa, Rafael Menin Teixeira de Souza, afirmou que, graças à queda da taxa Selic e incentivos no crédito imobiliário, “começamos a atuar na faixa de famílias com renda mensal entre R$ 4.000 e R$ 8.000”.

Outro caminho para a diversificação só foi resolvido em fevereiro desse ano, depois de muitas idas e vindas. Veja, apesar de estar na Bolsa, a MRV é controlada pela família Menin, contando, além da construtora, com o Banco Inter e a CNNBrasil. O patriarca da família, Rubens Menin, tinha uma empresa, separada do grupo, a construtora AHS Residential, em Miami, EUA. De olho no próspero mercado de classe média nos Estados Unidos, em 2019 a MRV decidiu comprar a AHS. Com a ajuda de um espelho, o Presidente do Conselho da MRV, Rubens Menin, conversou com o dono da AHS, Rubens Menin, e ficou tudo certo. O problema é que investidores daqui e de lá não ficaram satisfeitos com a forma pela qual o negócio se desenrolaria. Muita conversa e tratativas e só em fevereiro de 2020 o negócio recebeu o sinal verde.

Há um longo caminho para atender esse público. Por alguns anos a MRV foi uma das campeãs de reclamação em sites e órgãos de defesa do consumidor.

4 – Lojas Americanas (LAME4)

No Joesley Day (17/5/2017), chegou a R$ 14,34
Três anos depois, 15/5/2020, valia R$ 26,51
Porque Uma das mais afetadas pelo Joesley Day, mas seus desafios começam agora.
Daqui para frente Menos loja, mais site.

Segundo o Valor Econômico, as Lojas Americanas já denotam mudanças em seu consumidor. Ele vai menos às lojas, e, quando vai, compra mais coisas. E tem muita gente comprando pelo site pela primeira vez.

5 – Banco do Brasil  (BBAS3)

No Joesley Day (17/5/2017), chegou a R$ 27,12
Três anos depois, 15/5/2020, valia R$ 26,15
Porque Rumores de privatização
Daqui para frente O Banco do Brasil continua a depender em parte do que acontece em Brasília.

A surpresa com o Banco do Brasil foi a empresa não ter caído mais durante o Joesley Day. Ligado umbilicalmente com o Governo (qualquer governo) a empresa até que se saiu bem, apesar dos frequentes abalos com notícias de privatização, venda de unidades de negócios, entre outras.

Além da instabilidade de Temer, em 2017 a Operação Lava-Jato já mirava alguns gerentes menores do banco, e seu ex-presidente, Aldemir Bendine. O mesmo que fora responsável por navegar o banco logo após a crise imobiliária (subprime) que se iniciou nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo, em 2009. Mesmo com o mercado financeiro em uma crise sem precedentes, em 2009 a ação do Banco do Brasil subiu 90%

Em 11 de maio de 2020, Bendine foi condenado a seis anos e oito meses de prisão por corrupção passiva.

Segundo o jornal O Globo, na gravação da reunião ministerial que o ex-Ministro Sérgio Moro quer divulgar, o Ministro da Economia Paulo Guedes teria dito “Tem que vender logo a porra do BB”. O tempo passa, e o banco continua a depender do que se ouve de Brasília.

Hoje em dia – São três anos que separam o “Tem que manter isso aí” do “E daí?”, mas os paralelos são assustadores. O ano começou também com o imponderável, não tivemos rebelião, mas casos de contaminação na água do Rio e de uma Cervejaria em Minas. Duas maneiras tristes e inesperadas de começar o ano. Cid Gomes mandava uma escavadeira atropelar uma manifestação e, em vez de Trump entrando, teve príncipe e princesa saindo, Harry e Meghan abdicam e tentam levar uma vida normal, cercados de um exército de seguranças e fotógrafos, como qualquer pessoa comum.

E o ponto de interrogação, ah, o ponto de interrogação foi o novo Corona Vírus. Tanto a China como a Organização Mundial da Saúde demoraram a agir, e temos uma pandemia que está dando tanto o que falar como o Joesley Day. Com direito a Circuit Breaker, no dia 9 de março, resultado da pandemia e de uma briga entre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e a Rússia. Ninguém sai de casa, não se usa combustível, o que fazemos com o Petróleo?

Empresas vão sofrer, muito, e terão que se adaptar para viver em um novo mercado, com novas regras.

A diferença é que no Joesley Day muitos choraram abraçados. Metade disso nos é negada agora.

Mas sobrevivemos àquele dia mais calejados e acreditando que as coisas podem melhorar.

A pandemia também vai passar. Acreditemos e vamos construir um lugar melhor para trabalhar, investir e viver.

por Brasílio Andrade Neto

 

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