Dólar fecha em queda ante o real e volta a flertar com suportes técnicos

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O dólar voltou a cair de forma expressiva ante o real nesta quarta-feira, com a moeda norte-americana flertando com suportes técnicos em meio à expectativa de mais liquidez no mundo.

O real esteve entre as divisas de melhor desempenho na sessão, numa lista dominada por moedas que, assim como o real, se beneficiam de perspectivas de recuperação econômica. O dólar, por sua vez, tocou mínimas em cerca de três meses ante uma cesta de pares e caía nesta sessão contra 28 de seus 33 principais rivais.

No mercado doméstico, o dólar à vista fechou em queda de 1,03%, a 5,3206 reais na venda, menor patamar desde o último dia 19, quando encerrou a 5,3131 reais –o menor valor de encerramento desde 17 de setembro (5,2319 reais).

Ao longo desta jornada, a cotação oscilou entre 0,37%, para 5,396 reais (logo no começo da sessão), e recuo de 1,32%, a 5,3052 reais, por volta de 15h15.

A moeda voltou a se aproximar dos suportes de 5,3000 e da média móvel de 200 dias (atualmente perto de 5,29 reais) –que, se rompidos, poderiam deflagrar mais vendas de dólares.

Na B3, o dólar futuro tinha baixa de 1,07%, a 5,3165 reais, às 17h12.

Na terça, o dólar spot havia perdido 1,09%, a 5,3759 reais na venda.

Lá fora, o índice do dólar cedia 0,16%, enquanto a moeda dos EUA caía 0,5% contra rand sul-africano, 1,1% ante lira turca, 0,5% frente ao dólar da Nova Zelândia e 1,2% em relação ao peso chileno. Esse movimento se manteve depois de o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) divulgar a ata de sua última reunião de política monetária.

O Fed vem defendendo a manutenção de recursos para financiar suas ferramentas de apoio à economia, especialmente depois de o Tesouro dos EUA anunciar o encerramento de alguns dos principais programas no fim deste ano.

Apesar disso, o mercado vem reagindo com venda de dólar à possível indicação da ex-chair do Federal Reserve Janet Yellen para o comando do Tesouro dos EUA. O entendimento é que a dupla Yellen/Powell –Jerome Powell, atual chair do Fed– poderia promover uma coordenação sem precedentes entre as políticas monetária e fiscal a fim de garantir a recuperação econômica dos EUA da crise da Covid-19.

O ambiente externo mais positivo foi decisivo para que alguns bancos estrangeiros melhorassem as perspectivas para o real nos próximos meses.

Analistas do Barclays, por exemplo, veem que o mercado pode se tornar “muito otimista” no primeiro semestre de 2021 se a incerteza fiscal diminuir (ainda que temporariamente), se a economia global se recuperar e se os riscos relacionados à Covid-19 forem reduzidos.

“O posicionamento leve, valuations atrativos e um beta alto ao ambiente offshore mais construtivo trazem uma janela de oportunidade para apreciação do real no final do primeiro trimestre de 2021”, disseram em relatório Roberto Secemski, Juan Prada e Sebastian Vargas.

O Barclays projeta que o dólar terminará 2020 em 5,35 reais e fique em 5,15 reais ao fim do primeiro trimestre de 2021, indo a 5,05 reais, 5,15 reais e 5,25 no fechamento dos demais trimestres, respectivamente.

O CIBC vê inclusive a moeda norte-americana indo à faixa entre 4,50 reais e 4,80 reais com aprovação da reforma administrativa e com aceleração da agenda de privatizações em 2021, em meio a um suporte por parte do Banco Central.

“Prevemos intervenção do BC nos picos recentes acima de 5,60 reais”, afirmaram analistas do CIBC, vendo inclusive chances de aumentos de juros em 2021.

Bernardo Zerbini, um dos responsáveis pela estratégia da gestão macro da gestora AZ Quest, também vê a sinalização recente do BC sobre oferecer liquidez ao mercado no fim do ano como fator de apoio ao câmbio e avalia que uma normalização da política monetária no ano que vem ajudaria o real.

“Você começaria a tentar equiparar o Brasil em termos de carry (retorno de taxa de juros) aos demais pares, como África do Sul e México”, afirmou, considerando “factível” um dólar de 5 reais nos primeiros meses de 2021.

Os contratos de NDF de real para um ano embutem taxa implícita de 2,2% ao ano, enquanto taxas de juros equivalentes para o rand sul-africano e peso mexicano estão em 4,3%. A nota de crédito soberano do México está acima da brasileira e, apesar da mesma classificação de risco da África do Sul, o Brasil oferece praticamente a metade do carry do país africano.

Mais cedo, dados de transações correntes pintaram um quadro benigno para as contas externas. O superávit em transações correntes foi de 1,473 bilhão de dólares em outubro, melhor que o previsto pelo mercado, com o déficit em 12 meses caindo a 1,04% do PIB, menor valor desde fevereiro de 2018.

“No geral, a dinâmica de curto prazo da conta corrente é bastante favorável, devido à sólida demanda de exportação e à melhora dos termos de troca”, disse o Goldman Sachs em nota. “Mas um ajuste fiscal profundo que eleve a poupança do setor público permanece crítico para facilitar um ajuste estrutural permanente em conta corrente, em vez de apenas um ajuste cíclico impulsionado pela fraca demanda interna abaixo do potencial”, acrescentou.

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