O “sextou” e o “segundou” do Carrefour (CRFB3)

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Na quinta-feira (dia 19 de novembro), logo após o fechamento do mercado, e também enquanto todos encerravam seus home office, uma notícia ganhou a cena: uma pessoa, negra, havia sido espancada e morta pelos seguranças do Carrefour (BOV:CRFB3), em Porto Alegre. Isso ocorreu um dia antes do Dia da Consciência Negra.

Essa pessoa se trata do soldador João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos. As câmeras de segurança mostram que houve um desentendimento do soldador com uma funcionária da rede de supermercados. A confusão acabou em tragédia.

Na bolsa, as ações do Carrefour performaram positivamente no dia seguinte, o que surpreendeu muitos investidores. Afinal, normalmente o que se percebe é que toda notícia, muito antes de causar repercussão na mídia, já está agitando as ações da empresa na bolsa de valores. Mas vale dizer que esse “perfomou positivamente” (alta de 0,49%) já demonstrava uma expressiva queda em relação ao dia da tragédia (quando a ação registrou alta de 1,45%).

Hoje, segunda-feira, 23 de novembro, as ações do Carrefour são a maior baixa do dia na bolsa, em torno de 5% negativos, muito devido ao fechamento de lojas e protestos da população contra a rede de supermercados. Para os investidores que não estavam entendendo por que isso já não havia acontecido na sexta, fica o aprendizado: tarda, mas não falha.

Tão importante quanto os números é a imagem da empresa, e com essa notícia o Carrefour não ficou muito bem na fita. Ainda que os seguranças sejam terceirizados, o que teoricamente isenta a empresa, em partes, do acontecido, não é a primeira vez que situações muito delicadas como essa acontecem em seus estabelecimentos e que seus dirigentes precisam ir a público se pronunciar. Eles falaram sobre a morte de João Alberto na TV, enfatizando o pedido de desculpas à família dele, à sociedade e aos seus colaboradores.

Se na sexta-feira você estava vendo aquele jornal da noite que ninguém perde, com certeza viu isso, mesmo sem ter lido a notícia ou sequer entendido bem, porque, como dito, as ações não demonstraram em um primeiro momento o que havia acontecido. Alguns dias depois, o Carrefour divulgou a criação de um fundo com aporte inicial de R$ 25 milhões voltado para a promoção da inclusão social e combate ao racismo.

Vale dizer que, quatro meses antes, o discurso dos dirigentes também estava voltado para uma morte, dessa vez do vendedor Moisés Santos, que sofreu mal súbito e faleceu em uma unidade do Carrefour, em Pernambuco, enquanto trabalhava. O corpo foi coberto por guarda-sóis, enquanto o atendimento na unidade ocorreu normalmente ao público. Para manter as aparências, seguranças ficaram vigiando o corpo, a fim de os clientes não perceberem, o que a mídia chamou de uma real “ocultação de cadáver”.

O corpo só foi retirado do local após 4 horas, pelo Instituto Médico Legal. No comunicado disponibilizado na página Facebook da empresa, o Carrefour revelou que seguiram o procedimento de não tocar no corpo antes que os órgãos competentes chegassem. Além disso, deixou claro que, a partir do ocorrido, orienta suas unidades a realizar o fechamento de lojas em casos raros como esse – não tão raros, como vimos até aqui.

Essa é a nova diretriz interna das unidades do Carrefour, porém aconteceu algo um pouco mais externo, embora ainda dentro das dependências dos estabelecimentos da empresa. Em 2018, foi no estacionamento de uma unidade do Carrefour em Osasco que um cachorro foi envenenado e espancado por um colaborador da rede. Foi uma cliente que prestou o atendimento ao animal, levando-o ao veterinário, porém o cão não resistiu. O Carrefour foi multado em R$ 1 milhão por maus-tratos cometidos pelo seu funcionário.

Como sabemos, o capital humano faz parte dos bens intangíveis das empresas, e são eles que produzem valor econômico para elas. Ainda que máquinas possam realizar grandes feitos, são as pessoas que estão por trás disso. Nesse sentido, as notícias do Carrefour mostram algo importante: que o mercado está sempre de olho em tudo o que acontece com as companhias listadas na bolsa, e é no sobe e desce que ele repercute tudo isso.

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