Um ano inteiro de pandemia fez com que muitas empresas repensassem seus rumos e tomassem decisões inesperadas. Lá fora, por exemplo, a Disney começa a questionar se vale a pena continuar a publicar os gibis do Homem-Aranha, Vingadores e o resto da turma. Não seria mais lucrativo ficar apenas com os filmes, séries e jogos? Sim, uma empresa que nasceu fazendo quadrinhos pode parar de fazer quadrinhos.

Entendidos de administração vão falar sobre miopia empresarial e que o negócio da Marvel não é quadrinhos, mas contar histórias. Ou, para citar outro exemplo, como a Blockbuster não sabia que seu negócio era levar entretenimento às pessoas, em vez de alugar vídeo. Se você tem menos de 25 anos, peça para seus pais explicarem o que eram “videolocadoras”.

Um exemplo mais triste é o das Indústrias Reunidas Matarazzo. Eram mais de 350 negócios diferentes entre as décadas de 1950 e 1960. Seu tamanho era tal que, na época, dizia-se que o estado mais rico do Brasil era São Paulo. O segundo, as Indústrias Matarazzo. Hoje, do antigo império resta a marca de sabonetes Francis, vendida para outra empresa em 2011, e alguns nomes espalhados pela cidade de São Paulo. Como é o caso da Praça Conde Francesco Matarazzo Junior, na Barra Funda. Antes de ser praça, era a fábrica onde os Matarazzo produziam perfumes. E… inseticidas. E… pregos?

Entende a importância de saber para onde vai?

No Brasil, em 2021 algumas empresas só se ajustam um pouco, outras pegam um grande desvio. Muita compra e muita venda. Algumas vendas de ativos são tão importantes que empresas como a Petrobras (BOV:PETR4) e a Vale (BOV:VALE3) vão à mídia para explicar o que e por que estão vendendo. Quando foi a última vez que você viu nossas empresas virem a público falar com os investidores, e não com os clientes?

Por isso, são tão importantes eventos como o Visão 2030 da BRF (BOV:BRFS3). Nele os executivos mostram o mapa que querem seguir na década. E falaram coisas importantes:

  • Primeiro: até 2030, 50% da energia consumida pela BRF deve vir de usinas próprias, principalmente solares e eólicas. Ou seja, uma das maiores empresas do Brasil vai passar dez anos construindo usinas eólicas. Quem sabe um bom motivo para pensar na Aeris (BOV:AERI3) a longo prazo?
  • Segundo: 10% da receita em 2023 no Brasil devem vir de produtos que ainda não existem, principalmente pratos prontos. A BRF também descobriu que o brasileiro em geral, tirando os times do São Paulo e Corinthians, consome pouco porco e vai investir nisso.
  • Terceiro: a empresa quer ampliar sua liderança no mercado halal, ou seja, alimentos que podem ser consumidos por muçulmanos. Na Turquia e Europa, uma das marcas líderes é a Banvit, que pertence à BRF. A estratégia da marca é exportar mais para a Europa. Já no Oriente Médio, a líder em alimentos islâmicos é a Sádja. Conhece? Experimente tirar o acento. Ou seja, é um mercado onde, cada vez mais, tudo vai acabar em esfiha.

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Fonte: Divulgação.

  • Quarto: vem aí uma onda de aquisições e construção pelo mundo. A BRF quer exportar do Brasil cada vez menos, e produzir localmente cada vez mais. Processadoras de alimentos e fazendas devem pipocar no Oriente Médio, Europa e América do Norte.

Ultrapar (BOV:UGPA3)

A empresa é um exemplo, pois promete tomar em 2021 quatro caminhos diferentes, conforme o negócio:

  1. Vender: a Extrafarma. Em 2013, a Ultrapar comprou a Extrafarma por um bilhão de reais. Na época, ela contava com 200 lojas. Em 2016, eram 300. Em 2018, 400. Em 2019, lançou sua marca própria de vitaminas e genéricos. Em 2021, a Ultrapar, querendo focar em seu negócio de petróleo e gás, dedica uma canção de Lulu Santos à Extrafarma: “Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais”.
  2. Expandir: a rede de postos Ipiranga, construindo bases de distribuição em Belém, Fortaleza, Vitória, no Espírito Santo, e Cabedelo, na Paraíba. Além disso, promete focar na construção de postos maiores, para gerar ganho de escala.
  3. Mudar: a rede Am-Pm. As pessoas aprenderam que não precisam de uma loja de conveniência para comprar uma bobagem no meio da noite. Podem pedir pelo celular. Por isso, o grupo testa novas formas de lojas, aproximando do conceito de lanchonete, tirando-as de dentro dos postos, abrindo unidades maiores em rodovias.
  4. Jogar cara ou coroa: com a Oxiteno. Sabe aqueles desenhos animados em que o personagem tem um anjinho e um diabinho nos ombros? É a Ultrapar com a Oxiteno. Se você disser que uma empresa de químicos não tem nada a ver com óleo e gás, está certo. Se disser que tem tudo a ver, também está certo. Se vamos apenas distribuir, não precisamos pesquisar. Parte das pesquisas da Oxiteno é sobre novas formas de transporte de gás e óleo, o que significar uma lucratividade muito maior. E você? Venderia ou manteria a Oxiteno? Comenta aqui no fim desta matéria.

Marcopolo (BOV:POMO4)

A empresa desfez sua parceria com a indiana Tata Motors, abriu mão da maior fábrica de ônibus do mundo para focar nos Veículos Leves sobre Trilhos (VLT) da Marcopolo Rail. A empresa se apoia em projeções de crescimento das cidades da América Latina e na busca por alternativas menos poluentes. Brasil, México, Colômbia e Chile são os mercados mais promissores nesse momento. Ou seja, a Marcopolo busca ser sua própria alternativa, conforme a demanda por ônibus diminui. O primeiro VLT já opera em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul.

Então, na hora de escolher uma ação para sua carteira, lembre-se: expandir pode ser bom ou ruim. Vender ativos pode ser bom ou ruim. Pesquise e tente descobrir por que a empresa está tomando aquela decisão. Seu bolso vai agradecer.

E ele vai agradecer também você ver este vídeo especial baseado nesta matéria que você acabou de ler. Depois de assistir, não se esqueça de deixar o seu joinha no vídeo, inscrever-se no canal e ativar o sininho para receber em primeira mão as novidades!