Vale e Petrobras tornam-se as duas maiores distribuidoras de lucros do mercado brasileiro

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Duas das maiores empresas do País, Petrobras e Vale tornaram-se também as duas maiores distribuidoras de lucros do mercado brasileiro, com pagamentos recordes de dividendos para seus acionistas em 2021, mostra levantamento da consultoria Economatica a pedido do Broadcast. Os pagamentos, que somam R$ 136,4 bilhões, ocorrem após as companhias atravessarem os últimos anos em meio a turbulências, com denúncias de corrupção e tragédias ambientais e humanas, respectivamente.

O levantamento mostra que a Vale vai distribuir R$ 73 bilhões este ano, o maior valor entre as empresas listadas na bolsa de valores brasileira. O valor inclui dividendos e juros sobre capital próprio. A Petrobras aparece em segundo lugar no ranking, com pagamento de R$ 31,5 bilhões em 2021 – esse valor, no entanto, será ainda maior, uma vez que a petroleira anunciou que vai distribuir R$ 63,4 bilhões este ano. O terceiro lugar é do banco Santander, com pagamento aquém dos líderes, de R$ 3 bilhões.

Os números refletem, especialmente, uma fase de preços das commodities nas alturas, o que resultou em forte geração de caixa das companhias. No caso da Petrobras, o barril de petróleo tipo Brent está na casa dos US$ 80, o maior nível em oito anos. O fluxo de caixa elevado também é reflexo da política de preços dos combustíveis – a mesma que pressionou a inflação, gerou insatisfação de consumidores e críticas do presidente Jair Bolsonaro, que vê como “absurdos” os lucros distribuídos.

Já o minério de ferro chegou a ser negociado a US$ 230 a tonelada em maio, em níveis recordes, antes de começar a ceder diante das incertezas sobre o ritmo de demanda da China. “A Vale gera muito caixa e não vive um grande ciclo de investimentos. O endividamento está baixo, perto de zero. E, mesmo colocando as obrigações por Mariana e Brumadinho (reparação por conta dos desastres), a dívida expandida está abaixo da meta, de US$ 15 bilhões”, diz Daniel Sasson, analista do Itaú BBA.

Em novembro, a Vale está presente em quatro de oito carteiras de ações boas pagadoras de dividendos recomendadas por corretoras de valores, segundo levantamento do E-Investidor. É um grupo que a mineradora nem sempre frequentou. A decisão de ser uma boa pagadora de dividendos foi tomada na gestão de Murilo Ferreira, que deixou a Vale em 2017. Com a tragédia de Brumadinho, em 2019, foram quase dois anos sem distribuir lucros, o que foi retomado em setembro de 2020.

Já na Petrobras, a decisão de focar nos investidores ocorreu em 2016 e vem ganhando força desde então. A empresa definiu que, após reduzir seu endividamento bruto a US$ 60 bilhões, retornaria 60% do seu fluxo de caixa livre aos acionistas. Essa meta foi batida no terceiro trimestre deste ano. A política permitiu pagamento de dividendos mesmo em anos de prejuízo. Recentemente, o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, disse que a União, como maior acionista, recebe grande parte dos recursos.

As duas gigantes vivem outras semelhanças estratégicas nos últimos anos, como o ciclo de desinvestimento em negócios considerados pelos seus gestores menos rentáveis ou fora da atividade principal. A Petrobras, por exemplo, levantou R$ 11,3 bilhões com a venda de ações remanescentes da BR Distribuidora. A empresa também está se desfazendo de oito refinarias e campos produtores de petróleo e gás em águas rasas e em terra para focar no pré-sal. A Vale, por sua vez, anunciou recentemente a venda de suas ações na Mosaic por US$ 1,26 bilhão.

Ilan Arbetman, analista da Ativa, afirma, porém, que os mercados de petróleo e mineração tomaram rumos diferentes nos últimos meses. Com a desaceleração da China, o preço do minério de ferro recuou para baixo de US$ 100 a tonelada. Mais de 50% das receitas da Vale vem das exportações para a China, que tem sinalizado menor demanda “As dinâmicas do minério e do petróleo, portanto, estão diferentes, o que está se refletindo nos preços das ações na bolsa”, diz. Os papéis preferenciais da Petrobras sobem pouco mais de 2% no acumulado de 2021, enquanto os ordinários da Vale recuam cerca de 15% no período.

Para o presidente da Associação Brasileira de Investidores e Economistas (Abradin), Aurélio Valporto, tanto a Vale quanto a Petrobras têm enorme importância para o País, mas com competências estratégicas diferentes. Ele argumenta que o minério de ferro da Vale é, individualmente, a principal commodity exportada pelo Brasil e que, sem ela, a taxa de câmbio estaria em patamares ainda piores que a atual. “A importância da Petrobras é outra. A sociedade depende de energia para tudo, quanto mais barata e abundante a energia, mais saudável tende a ser a atividade econômica”, avalia.

A Petrobras, por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou ao Broadcast que não pretende ser reconhecida como exportadora de commodity e que continuará processando uma parte relevante da sua produção de petróleo e gás em suas refinarias no Brasil. “A Petrobras reafirma seu comprometimento em modernizar as suas refinarias e a logística associada com previsão de investimentos significativos na modernização do seu parque de refino”, disse. Segundo a companhia, desde 2015 seu foco era a redução da dívida. “Até então, todo caixa excedente pagava dívida e juros aos bancos, impossibilitando o pagamento de dividendos para os acionistas. Agora, a companhia se reergueu”, completou a empresa, que garante que os investimentos não serão comprometidos pelo pagamento de dividendos.

Informações Broadcast

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